In§tante§ ð'um £ouco: Abril 2007
...pudesse falar-te eu sem palavras
como uma sombra estranha
segreda ao ouvido duma rosa...
Existe em mim um eu
Que não sou eu
Nem me pertence
Está em mim
Na outra face de mim
Escuto a voz
Ouço o eco
Conflitos que são silêncios
Mundo paralelo!
É nele que me apago
Que me perco
Que me escondo
Para sempre
No esquecimento

Aqui amargo, ali doce...
Aqui áspero, ali macio...
Silenciosamente provei a malícia
Derramei tristeza em lágrimas de dor
Amarguei esperas infinitas
Senti-me abandonado e só
Conheci o descrédito
Tive má fama
E tudo superei

Hoje, nada me ensombra
Até os desencantos me encantam...
Atentos aos ensejos
Soltamos receios
Renovamos desejos
Inventamos desenleios...
Voamos por caminhos invisiveis
Atravessamos o mar
Cruzamos ondas apraziveis
Espelhos nitidos de luar.

Dos lábios sopramos diálogos de amantes...
Deito-me no meu consciente
Como se fosse a última noite...
Tudo me vem ao pensamento
Como se dentro de mim
Um maremoto erguesse todo o sentir.
Reencontro a criança
Que repousa na orla do silêncio
Lá, onde o tempo se invalida e renova.

Habito o espaço onde o estar é ser...
Escasseiam-me os sonhos...
Sinto-me como uma ave que perde as asas em pleno voo.
Desço a ti, inversa loucura
Reverto contigo ao desencanto
Pranto em sangue, agonia

De regresso a ti, perversa loucura
Turvas-me a luz
Encaminhas-me às trevas
Rasgas-me lágrimas em copo vazio
Voltas a vestir-me de negro-morte

Tentas-me, fel loucura
Entranhas-me no teu gesto mortiço
Dás-me os teus olhos fundos
A palidez do teu abraço gelado

É a ti que aceno, crua loucura
Tombo no imo movediço
Sinto-te dentro dos ossos
Arrisco o beijo no teu rosto-veneno
Definho a teus pés, inerte

Toco-te leve, arguta loucura
Roubo a fragilidade que tens de ti
Depuro as tuas forças ilícitas
Caio em pedaços, débeis ruinas
Bebo amargor nascido da terra humida
Brando, lento e doce sucumbir

Loucura de mil faces
Guardiã das minhas asas
Meu desamparo desejado...
Reencontro de desejo
Raro toque de paixão
Noite inteira de nós

Meia-noite
Estás à distância de um sonho...
Nomeio Raiva
Nomeio Angústia
No meio Loucura
Nomeio Insónia
Oito meses já. Oito meses e onze dias e, se olhar para o relógio, digo-te o numero das horas: oito meses, onze dias e dezoito horas. Quase dezanove. Há oito meses, onze dias e dezoito, quase dezanove horas tu no patamar, com duas malas, a carregares no botão do elevador que chegou num instante para mim e demorou eternidades para ti pelo modo como batias a ponta do sapato no chão e eu no capacho a ver-te, demasiado cheio de palavras para conseguir falar. Depois o elevador parou, abriste a porta, empurraste as malas para dentro e foste-te embora sem olhar. O perfume aguentou-se um bocado por ali. Quando deixei de o sentir fechei a porta. Inclusive do quarto. Inclusive do armário onde a tua roupa esteve. Cabides vazios, nenhum cheio. Sobrou metade de um brinco numa gaveta. Não um brinco caro, uma dessas coisas de fantasia que usavas no verão. Plástico e arame, arame e plástico com uma conchinha verdadeira na ponta. A conchinha baloiçava ao falares. Fui buscar o martelo e acabou-se o brinco. O problema
foi a mossa que deixei na cómoda. Gostava que tivesses visto: plásticos e arames quebrados por todo o lado. A conchinha não sei onde pára, nunca mais lhe pus a vista em cima. Um destes domingos, que é quando passeio pela casa a odiar-te, encontro-a meio escondida numa frincha do rodapé, puxo-a com uma faca ou isso e aí está o martelo de novo. Com mais força e a conchinha pó. E a partir daí sim, somes-te por completo. Um alívio. Mas como não sou vingativo desejo-te que estejas bem, desde que
não te ponha a vista em cima. E se te puser a vista em cima oxalá não tenha o martelo. Oito meses, imagine-se. Apetece-te um dos iogurtes fora de prazo do frigorífico? Desde há oito meses só há coisas fora do prazo aqui, a começar por mim. Claro que continuo a trabalhar , a sair com os rapazes à sexta, a trazer de tempos a tempos uma pequena ou outra sem brincos de fantasia, com brincos autênticos. Uma delas aspirou-me o chão. Queria fazer o ninho comigo, ocupar o teu lugar. Era ruiva. Não ruiva pintada, ruiva autêntica. Sempre que conheço uma ruiva começo a contar-lhe as sardas, é mais forte que eu, esqueço-me dos meus deveres de homem: fico para ali de dedinho espetado, a somar. Aspirou-me o chão, foi lá abaixo deitar dúzias de jornais antigos no contentor, informou.
- Esta escova de dentes está uma miséria
não conseguiu ligar a torradeira, deu-me um papelinho com o telefone e foi-se embora. Hei-de tê-lo por aí, na gaveta das facturas. Não consegui ligar a torradeira visto que ninguém consegue ligar a torradeira, em Março deitou umas chispas, deu um salto e faleceu. As fatias de pão continuam entalas no interior do mecanismo, invisíveis, excepto um cogumelozinho de bolor que surge de vez em quando do metal amolgado.
Á parte isso e à maior parte das torneiras pingarem vai-se vivendo: oito meses e onze dias sem ti é obra. A minha mãe sugere que me case outra vez. Lava-me a roupa, dá um jeito nas coisas. Não falamos de ti. Fala da enteada da vizinha do andar de baixo, que tem bom feitio, é solteira e trabalha nos impostos. Um autocarro atropelou-lhe o namorado. A minha mãe garante que já me mencionou a ela várias vezes, Nessas conversas à porta do prédio, cada qual com a sua chave e o seu saco de compras e a enteada deu ares de interessar-se. Faço ideia do que a minha mãe lhe terá dito. Sei que pediu um retrato para me mostrar e no retrato uma mulher de aspecto triste, sem idade. Não ruiva. Pelo menos não teria de contar-lhe as sardas. O problema é que a tristeza não se pega e não me vejo a aquecer o leite de manhã apagando uma lágrima na manga do pijama. O autocarro arrastou-lhe o namorado uns vinte metros e esses coisas marcam. Ou então foi sempre triste, há pessoas a quem alegra sofrer. O que me custou mais no retrato é que usava brincos parecidos com os teus, de conchinha na ponta. Sinceramente não me apetece martelar mais nada.
Oito meses e onze dias, olha-me para a rapidez do tempo.
Daqui a momentos sou velho, quarenta anos, cabelos brancos, pedras na vesícula, essas maçadas, uma eternidade para subir os degraus, problemas para segurar o cuspo do lado esquerdo da boca. Tu não mudaste de certeza, nunca mudaste desde que te conheci. Umas rugazitas, talvez. Não, nem sequer umas rugazitas, intacta.
Chamavas-me
- Meu coelhinho
ao princípio, depois do princípio, passaste a chamar-me
- Amadeu
Passaste a não chamar-me fosse o que fosse. Às vezes dava por ti a espiar-me com pena, abanando a cabeça. Não tive coragem de perguntar o que significava o abanar da cabeça, suponho que desilusão a meu respeito, ou
- O que estou a fazer aqui?
ou
- Porque carga de água te aceitei, enganei-me
ou qualquer sentimento desse género e eu calado. O que podia dizer? Tudo se passou em silêncio, aliás. Um feriado estava eu na sala, ouvi barulho de gavetas no quarto e eras tu às voltas com as malas. Nenhum de nós soltou um pio. Arrumavas as malas de costas para mim e ias empilhando camisas dobradas: Escutavam-se os automóveis a passar na rua, ia jurar que se escutava o pêlo do tapete ao lado da cama a crescer. Quando acabaste afastei-me para o lado e deixei-te passar. Não senti nada salvo uma espécie de vazio. Não bem vazio, um oco enorme. Perguntas que não fui capaz de fazer. A lembrança do
- Meu coelhinho
a atazanar-me. O que sucedeu connosco, explica-me o que sucedeu connosco. Tenho a certeza que não mudei. Quem mudou foi o andar, os móveis, apesar do sol a impressão de que me chovia por dentro. Se fechasse os olhos
(não fechei os olhos)
a chuva a descer atrás das minhas pálpebras. Não fui à janela ver-te na rua, fiquei para ali encostado ao louceiro, com ganas de meter-me debaixo dele como um coelhinho. O teu coelhinho. Há sempre alturas em que apetece pegar num bicho ao colo, nem que seja eu, e passar-lhe a mão pelo corpo, das orelhas à cauda, a dar conta do coração muito rápido, muito rápido, de uma vida aflita debaixo dos dedos. Oito meses, onze dias, dezanove horas e meia. Para a semana a minha mãe prometeu trazer-me a enteada da vizinha. Não vai encontrar-me: estarei no interior da torradeira como as fatias de pão. Quando muito hão-de ver o cogumelo de bolor de uma lágrima a surgir do metal amolgado.



António Lobo Antunes
Amor é tremor que abala
Amor é represa que sangra
Amor é tempestade que gera dilúvios
Amor são relampagos que inauguram auroras
Amor são incêndios na escuridão da noite

Ah, amor...! delírio que me atormenta
És fim de bonança
És tempestade que me completa...
Este instante é meu, só meu.
Instante de dor
Com dano e agressão.
Instante só meu
E de mais ninguém!

No silêncio da solidão encontro orgasmos
Íntimos e particulares da minha alma em vôo...
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