In§tante§ ð'um £ouco: Agosto 2008

Caminham pelo vento
Com longas vestes

Trémulas asas
Batem contra o tempo

Vêm do imaginário
Rasam a memória

Voam com o vento

Escuto insectos
Deito-me rente
Na terra

Debruçados na noite
Imagino anjos
A beberem a lua

Pétalas
Gomos sorvidos um a um

Cintilam pequenas
Escamas

Penas
Uma a uma formulam desejos
Em asas de anjo

Movimento estagnado
De paredes que respiram
Através do sal do útero

Contidas menstruações
Num arquejar lento

Pés nús
Bordejam o vento
Controlam o espaço

Corpos de leme
Asas que se fixam

Eriçadas e acesas
Em ombros de anjo

Anjos apenas
Em corpos de mulher

Leve crepitar
De ombros
com asas à mistura

Minudência sexual
Conotação de aventura

Tenso clitóris entumescido
Vagina que desabrocha
Na ponta de dedos

Afastar de lábios
Entreabrir de coxas

Sonhos
Mentes que observam

Anjos que tremulam
Sobre tréguas

Instante de bater
O coração de pedra

Uma rosa em auxilio

O apoio das asas
No bater do tempo

Asolutamente vazio?

Anjo é vida
Mulher que flutua

Asas de quartzo hialino
Incolores e voláteis

Voos em asas de prazer

Falas de anjo
Sonhos de água na boca

Asas longínquas
Afago de ombros

Liquido céu
De olhos de mulher

Fantasia do tempo
Infracção das horas

Caminhar sedento
Na protuberância das asas

Será a queda o vicio dos anjos?

Destino que voa pelos meus olhos...
Finalmente acalmo de tanta inquietação...
Liberto-me, mas o meu destino é ser escravo.
Acordo, e o meu sentido é ser humano a dormir.

Não entendo a minha alma
será que foi sempre minha?
Corpo distante
De chama subtilmente intensa
De ausênsia e noite constantemente volvida
Noite, porto de consequências doridas!
Mágoa de despedidas
Sonho de sentir...

Corpo distante...
Eco de vida...
Retorna crescendo a chama suavemente intensa
No peito perdido do acaso.

Corpo distante...
Certeza de toque...
Longe, e a chama que vem grande vem mais grande.
Corpo distante...
Ofereço-te um café e falo-te da minha vida.

Avançava o verão na noite em que te ouvi
Sobressaltado por mágoas, as estrelas quebravam-se
Aos olhos de uma criança assustada que fugia
Do vento que lhe feria a cara com a violência
De um passado inteiro.
Lembro-me disso na tarde em que calaste as vozes
Da casa com medo e frio como quem apaga cigarros
Nas costas da mão e quem te via chorava.
Mas tu não, nunca choraste por amores perdidos.
São belos os naufrágios, fazem-nos sentir vivos
Entre mares, acreditas? E fica a saudade do mar
Que faz cair primeiro sobre o nosso corpo
Tudo o que viremos a ser depois.

Ofereço-te um café se me falares dos teus amores.
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